Foto: ©Mercedes

A antevisão do Grande Prémio do Japão começa num ponto incontornável: a Mercedes chega a Suzuka como referência do campeonato. George Russell lidera o Mundial com 51 pontos, Kimi Antonelli segue logo atrás com 47, e a equipa alemã já venceu as duas primeiras corridas de 2026, incluindo a vitória de Antonelli na China, onde o italiano também conquistou a pole.

Os treinos de sexta-feira reforçaram essa leitura, mas sem a tornar absoluta. Na primeira sessão, Russell foi o mais rápido e liderou uma dobradinha da Mercedes à frente de Antonelli, com Norris, Piastri, Leclerc e Hamilton logo a seguir. Na segunda, Oscar Piastri respondeu e colocou a McLaren no topo, mas Antonelli e Russell voltaram a fechar o top 3, sugerindo que a Mercedes continua a ter uma base muito forte, mesmo quando não termina no topo da tabela.

Mercedes chega na frente, mas Suzuka não perdoa meias verdades

Foto: ©Mercedes

O verdadeiro peso de Suzuka está no facto de este circuito expor equilíbrio aerodinâmico, confiança em mudanças rápidas de direção e gestão de pneus de uma forma quase brutal. A análise técnica oficial da F1 já antecipava um Grande Prémio diferente dos dois primeiros da época, precisamente porque o novo regulamento de 2026 altera bastante a forma como os pneus e a energia se comportam num circuito tão fluido e exigente.

É aqui que a Mercedes precisa de transformar boa forma em autoridade total. Até agora, a equipa tem juntado qualificação forte, corrida limpa e grande estabilidade operacional. Mas Suzuka exige mais do que isso: exige um carro previsível nas curvas rápidas e uma gestão perfeita de energia ao longo da volta. Se Russell e Antonelli voltarem a controlar a frente do pelotão aqui, a ideia de que a Mercedes é a equipa a bater deixará de ser apenas tendência e passará a ser facto competitivo.

McLaren aparece mais viva e pode ser a principal ameaça

Se houve uma equipa a sair valorizada da sexta-feira, foi a McLaren. Depois de um início de época desastroso — marcado pelo acidente de Piastri na Austrália e pelo duplo não-arranque na China — a estrutura de Woking mostrou, em Suzuka, sinais claros de recuperação. Piastri foi o mais rápido em FP2 e Norris esteve no top 4 das duas sessões, ainda que tenha continuado a lidar com pequenos problemas de fiabilidade.

A grande dúvida é perceber se esse ritmo se mantém em qualificação e, sobretudo, em corrida. Andrea Stella admitiu na sexta-feira que a Mercedes parece ter ainda “um passo” quando é preciso juntar todos os setores numa volta rápida, mas também reconheceu que o comportamento de Ferrari, McLaren e Mercedes ficou relativamente dentro do esperado. Isso torna a McLaren particularmente interessante para sábado: parece mais próxima, mas ainda não claramente ao nível da Mercedes.

Ferrari está presente, mas ainda não parece a equipa que dita o fim de semana

Foto: ©Ferrari

A Ferrari volta a entrar na conversa, mas sem o peso de favorita. Leclerc e Hamilton terminaram as duas sessões sempre na zona alta da tabela, mas sem o brilho de quem parece ter o controlo do fim de semana. Hamilton, em particular, admitiu dificuldades de equilíbrio do carro na sexta-feira, o que indica que a Scuderia continua a procurar a janela certa num circuito em que a confiança do piloto conta tanto como a carga aerodinâmica.

Ainda assim, Ferrari não está fora da luta. O terceiro e quarto lugares no Mundial de pilotos, com Leclerc em 34 pontos e Hamilton em 33, mostram que a equipa tem sido sólida no início do ano. E se Suzuka se transformar numa corrida de execução e estratégia, e não apenas de velocidade pura, a Ferrari pode perfeitamente meter-se na luta pelo pódio — ou até por mais do que isso, se Mercedes e McLaren vacilarem.

Verstappen chega a Suzuka entre memória forte e presente desconfortável

Foto: ©Getty Images/Red Bull Content Pool

Há sempre uma narrativa especial quando Suzuka entra no calendário e Max Verstappen está em pista. O neerlandês venceu as últimas quatro edições do GP do Japão e Suzuka é um dos circuitos que melhor encaixam no seu estilo agressivo e preciso. Mas o contexto atual é muito diferente. Verstappen foi apenas sétimo em FP1, décimo em FP2 e já admitiu que não espera “milagres” da Red Bull neste fim de semana.

Depois do abandono na China e de um arranque de temporada muito aquém do habitual, a pergunta não é tanto se Verstappen pode vencer, mas se consegue arrastar a Red Bull para uma posição de verdadeiro combate. Em Suzuka, experiência e talento individual podem esconder alguma falta de performance de base durante uma volta; durante uma corrida inteira, isso é muito mais difícil.

O que pode decidir a corrida

A leitura de sexta-feira aponta para uma grelha mais apertada do que a classificação do campeonato sugere. Mercedes parece ter a melhor plataforma global. McLaren parece finalmente viva. Ferrari continua próxima, mas incompleta. E Verstappen mantém-se como incógnita perigosa, sobretudo num circuito onde partir bem na grelha pesa historicamente muito: 30 vencedores do GP do Japão arrancaram da primeira fila.

Por isso, a antevisão mais rigorosa talvez seja esta: Suzuka deverá confirmar a Mercedes como favorita, mas não necessariamente com domínio confortável. Se a sexta-feira não mentiu, Antonelli e Russell entram na frente, Piastri e Norris aparecem como ameaça real, Ferrari está pronta para aproveitar qualquer falha, e Verstappen continua demasiado talentoso para ser excluído, mesmo quando o carro não acompanha. A terceira ronda do campeonato pode não decidir nada ainda — mas tem tudo para dizer muito sobre quem está realmente pronto para lutar pelo título em 2026.

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